Domingo, 21 de Setembro de 2008

A situação do escritor brasileiro na época de Machado

machadinho


Em   Memórias   Póstumas  de   Brás   Cubas,   Machado de  Assis escreveu, através da   voz  de  seu protagonista:

Que   Stendhal confessasse haver escrito   um de seus   livros  para cem  leitores, coisa é  que  me  admira e  consterna. O que  não  admira, nem  provavelmente consternará é se  este  outro   livro não tiver os  cem   leitores de  Stendhal, nem cinqüenta, nem   vinte, e  quando   muito, dez. Dez? Talvez cinco...

No século XIX,  a  parcela  da   população  alfabetizada  era mínima e, além  disto, mesmo  entre os  que  sabiam  ler, poucos  eram os  que   tinham  condições   financeiras  para comprar   livros ou   jornais e estes   preferiam  os  escritores   estrangeiros. A pesquisadora   Alice  Koshiyama diz, em  seu   livro  Monteiro  Lobato - intelectual, empresário, editor,  que:

Os   escritores brasileiros que   no período 1890-1917  procuravam   publicar   seus textos precisavam lutar  contra as  condições   dominantes  no mercado   brasileiro de   livros, restrito e  valorizador de  autores   importados. (...)
Academias, livrarias, salões, se eram espaços    onde  o escritor  brasileiro  podia  estar em   evidência  literária e  social, não  modificavam as  condições  estruturais que  o  impediam  de  sobreviver   com o trabalho  de  escrever, pois o escritor  brasileiro (...) vivia   dos proventos fornecidos    por algum emprego, em geral  emprego   público...
Machado de  Assis   também  era   um desses  autores que  sustentava-se  com   um emprego público e  complementava a  renda  com a  publicação  de  seus romances.Sabe-se, por exemplo, que  seu  romance  Helena , em sua   primeira   edição,   teve uma   tiragem  de    parcos 1500  exemplares e que a  segunda  edição  só aconteceu    29 anos  depois;  o que  para  o leitor  de hoje  é algo  espantoso, já que este é  uma das   obras  mais  populares  do  escritor.  Vale  lembrar, ainda,  que antes da  publicação em   volume  único,  as obras eram   publicadas  em   folhetins, ou seja, o espaço de   variedades de   um  jornal, disputando espaço com  a  culinária e  a  moda  vinda de  Paris.
 Lendo  Machado de Assis...

CAPÍTULO XXXII
Olhos de Ressaca
– Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana
oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o  que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.






Fonte de  pesquisa:
  ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br .  Acesso em 21/09/2008.

KOSHIYAMA, Alice Mitika.   Monteiro  Lobato - intelectual, empresário,  editor.   São  Paulo: EdUSP, 2006,   p. 37;  45.

Próximo artigo da Série  Machado de  Assis: quarta-feira, dia 24 de  setembro. Programe-se!
Sobre  Machado de  Assis,  sugiro  a leitura do  texto Agenda Machado de  Assis , de   Sonia   Horn,  no  blog Cantinho da  Borboleta Azul.

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