A situação do escritor brasileiro na época de Machado
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis escreveu, através da voz de seu protagonista:
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que me admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco...
No século XIX, a parcela da população alfabetizada era mínima e, além disto, mesmo entre os que sabiam ler, poucos eram os que tinham condições financeiras para comprar livros ou jornais e estes preferiam os escritores estrangeiros. A pesquisadora Alice Koshiyama diz, em seu livro Monteiro Lobato - intelectual, empresário, editor, que:
Os escritores brasileiros que no período 1890-1917 procuravam publicar seus textos precisavam lutar contra as condições dominantes no mercado brasileiro de livros, restrito e valorizador de autores importados. (...)Academias, livrarias, salões, se eram espaços onde o escritor brasileiro podia estar em evidência literária e social, não modificavam as condições estruturais que o impediam de sobreviver com o trabalho de escrever, pois o escritor brasileiro (...) vivia dos proventos fornecidos por algum emprego, em geral emprego público...
Machado de Assis também era um desses autores que sustentava-se com um emprego público e complementava a renda com a publicação de seus romances.Sabe-se, por exemplo, que seu romance Helena , em sua primeira edição, teve uma tiragem de parcos 1500 exemplares e que a segunda edição só aconteceu 29 anos depois; o que para o leitor de hoje é algo espantoso, já que este é uma das obras mais populares do escritor. Vale lembrar, ainda, que antes da publicação em volume único, as obras eram publicadas em folhetins, ou seja, o espaço de variedades de um jornal, disputando espaço com a culinária e a moda vinda de Paris.
Lendo Machado de Assis...
CAPÍTULO XXXII
Olhos de Ressaca
Olhos de Ressaca
– Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana
oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.
Fonte de pesquisa:
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br . Acesso em 21/09/2008.
KOSHIYAMA, Alice Mitika. Monteiro Lobato - intelectual, empresário, editor. São Paulo: EdUSP, 2006, p. 37; 45.
Próximo artigo da Série Machado de Assis: quarta-feira, dia 24 de setembro. Programe-se!
Sobre Machado de Assis, sugiro a leitura do texto Agenda Machado de Assis , de Sonia Horn, no blog Cantinho da Borboleta Azul.





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Andréa Motta