Seu Jota
A riqueza de um paiz
mede se por sua cultura
e cultura quer dizer povo
qui fais sua nação segura
e um povo sabio feliz
preserva suas raiz
na característica pura
Há dois ramos de cultura
a erudita e a popular
uma deu vida pra outra
e até hoje vida dá
é o saber qui vem de cima
e é natal matéria prima
pra erudita se formar
e neste gigante universo
da cultura popular
a quase setenta anos
eu luto pra conservar
a identidade fiel
do verdadeiro cordel
sem o descaracterizar
(...)
E e a função do cordel
é transmitir sabedoria
preservar nossas raízes
natal como elas nascia
mantendo viva uma istoria
de lutas amor e gloria
e qui enriqueça os nossos dia
(RODRIGUES, Jota. A verdadeira função do cordel. Edição própria)
mede se por sua cultura
e cultura quer dizer povo
qui fais sua nação segura
e um povo sabio feliz
preserva suas raiz
na característica pura
Há dois ramos de cultura
a erudita e a popular
uma deu vida pra outra
e até hoje vida dá
é o saber qui vem de cima
e é natal matéria prima
pra erudita se formar
e neste gigante universo
da cultura popular
a quase setenta anos
eu luto pra conservar
a identidade fiel
do verdadeiro cordel
sem o descaracterizar
(...)
E e a função do cordel
é transmitir sabedoria
preservar nossas raízes
natal como elas nascia
mantendo viva uma istoria
de lutas amor e gloria
e qui enriqueça os nossos dia
(RODRIGUES, Jota. A verdadeira função do cordel. Edição própria)
Reencontrei hoje um livreto de cordel guardado há uns dois anos. Jota Rodrigues ( Seu Jota, como é chamado) é um cordelista do município de Nova Iguaçu , na Baixada Fluminense. Eu cheguei a ele através de meus alunos, que decidiram entrevistá-lo como parte de seu trabalho de fim de curso.
Lembro-me de ter ido buscá-lo em casa, uma certa manhã, para que ele pudesse participar de um debate sobre Literatura de Cordel, o tema do trabalho proposto. Os alunos me falavam sobre um senhor, muito conhecido na Baixada, que escrevera mais de cem livretos de cordel. Diziam, ainda, que colégios tradicionais do Rio de Janeiro também o haviam convidado.
Quando cheguei à casa do Seu Jota, encontrei um senhor muito simples, uma casa simples em bairro sem asfalto, no dia seguinte a uma baita chuva. Fui no carro conversando com Seu Jota. Descobri que já era a sua segunda visita à instituição em que trabalho; ele dizia gostar de ir lá. E explicou o porquê:
_ Vocês lá não ficam corrigindo meu português! Me escutam e pronto!
_ Como assim, seu Jota?
_ Ô professora, eu aprendi a ler e escrever com um poeta mais analfabeto do que eu. Eu não sei ler aquela letra corrida não senhora. Só sei ler letra de forma... Aí eu fui outro dia em um colégio _ e disse o nome , um tradicionalíssimo no Rio de Janeiro _ e eles resolveram me homenagear. A professora, uma boa moça, mandou os alunos corrigirem as palavras erradas que eu escrevi. Mas , agora me diga, professora: como eu posso oferecer português letrado se eu nunca tive isso não senhora? Eu gosto de ir lá nesse seu colégio porque vocês me respeitam... - Seu Jota me deixou mudinha pelo resto do caminho.
A proposta do trabalho dos alunos era uma conversa entre Seu Jota e uma professora do Ensino Superior, meia hora pra cada um, e debate com a platéia ao final. A conversa com Seu Jota durou quase três horas, com sala lotada; a professora convidada desistiu de falar, pois Seu Jota era sábio demais e nenhum de nós, apesar de diplomas e títulos, sabia tanto de literatura quanto aquele homem que se dizia semi-analfabeto e não sabia ler letra cursiva. Seu Jota, no entanto, escrevia seus textos, fazia as ilustrações em xilogravura e ainda saía por aí ministrando palestras ( em seu linguajar simples, porém capaz de fazer calar qualquer um ). Seu Jota levou uma parafernália: caixa de tipos; uma pequena prensa inglesa, ganha de alguém que se encantou com ele; painel com uma pintura sobre a casa onde nasceu; cem livretos.
O texto usado como epígrafe para esse artigo é de Seu Jota. No verso do livreto está escrito: "Pede-se aos professores e à escola que estimulem o interesse dos alunos na compra de livrinhos, para pesquisas e criação de textos sobre cordel".
Não sei porque razão lembrei-me de Seu Jota. Eu nunca mais o vi e aqueles alunos já se formaram. Da última vez que ouvi algo, soube que ele estava na programação fixa de um centro cultural em sua cidade. Tomara! Se resolveu ficar lá é porque o respeitaram ( de acordo com aquilo que Seu Jota considerava ser respeito).





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Andréa Motta