Celular na sala de aula? Não pode!

Aula de Língua Portuguesa e um telefone toca, interrompendo a explicação sobre colocação pronominal.
- Alô!! Oi, mãe, "tô" no meio da aula.
- Desligue o telefone, Camila (nome fictício). - digo eu, já olhando torto pra menina, e com vontade de jogar o aparelho pela janela.
- Mãe, fala rápido que a profe "tá" reclamando...
- Camila, peça licença à sua mãe e desligue esse telefone. Você está na sala de aula.
- "Peraí", profe!! Ô mãe, a profe "tá" reclamando... Fala logo!
A "profe" (eu) aproxima-se da aluna, de modo a ficar bem próxima do aparelho celular e diz:
- Camila, diga à sua mãe que você está no meio da aula de Língua Portuguesa e que é falta de educação atender o telefone na hora da aula. Diga também que não foi esta a educação que ela lhe deu. Agora desligue o telefone e fique quieta.
Camila fica com as bochechas vermelhas. Não sei o que a mãe, do outro lado da linha, falou .
- Desculpe, profe! Mãe, depois te ligo...
- Desculpo, sim, mas o meu celular está trancado dentro do armário; se morrer alguém na família, só ficarei sabendo depois da aula. Mantenha o seu desligado!
Foi publicada ontem, 14 de abril, a lei de autoria do deputado João Pedro Figueiras, que proíbe o uso de telefones celulares dentro das salas de aula; a lei refere-se às escolas da rede pública estadual, mas já se cogita a sua aplicação também nos estabelecimentos da rede privada de ensino. Os alunos não estão proibidos de levar os aparelhos para a escola, mas não poderão utilizá-los durante as aulas. O parlamentar justificou-se dizendo que o uso de celulares é desnecessário, uma vez que as escolas possuem telefones fixos que podem ser usados pelos alunos em caso de emergência.
Como professora, vejo todos os dias situações como a narrada acima; alunos de diversos níveis de ensino atendem chamadas nos telefones celulares como se isso natural fosse. A questão é que isto demonstra uma tremenda falta de bom senso, para não dizer falta de educação. Os pais dizem comprar os aparelhos para os filhos, pois precisam saber onde eles estão e usam a violência como pretexto. Concordo que, em uma cidade como o Rio de Janeiro, os pais fiquem apreensivos quando seus filhos estão na rua, mas creio ser necessária a orientação quanto ao seu uso: não dá pra atender ligação no meio da aula;tira a concentração de todos e é deselegante.
Há pouco, eu ouvia a entrevista de uma educadora e esta dizia que atitudes assim demonstram a perda do conceito de "limite ao espaço do outro". Eu não posso atender o meu celular no meio de uma aula, assim como não posso fazê-lo em uma apresentação teatral ou uma sessão de cinema, simplesmente porque atrapalharia outras pessoas. Tentei encontrar, no meio das minhas coisas, um texto que escrevi há anos e cujo título era "Etiqueta". Ali, eu escrevia sobre atitudes sociais simples que foram esquecidas: dizer "bom dia" e "boa tarde" ao seu vizinho não provoca dor de garganta, mas ouvir música no último volume pode ser motivo para chamar a polícia ( não nos esqueçamos que existe a "lei do silêncio"); jogar papel de bala no chão é falta de educação e ele será mais um papelzinho a entupir o bueiro na hora da enchente; falar alto em locais públicos é falta de educação e incomoda as pessoas em volta. Não lembro mais do texto que escrevi , mas há uma infinidade de delicadezas esquecidas.
Se a lei dos celulares será obedecida ou não, esta é uma outra questão. Não basta sancionar uma lei; este deve ser um trabalho conjunto entre pais e professores: bom senso de ambos os lados.




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Andréa Motta