Dor intelectual - a falta de Educação

"O que aconteceria se um deles saísse da caverna e visse a luz?"(Platão. A República-adaptado)
Há alguns dias, em aula, refletia com alguns de meus alunos sobre as diversas interpretações que a Alegoria da Caverna, de Platão, suscita. Falávamos sobre este texto cuja imagem são homens acorrentados que só conhecem o mundo através das sombras que são projetadas nas rochas para aas quais seus rostos estão voltados.
Eu usava, como trecho motivador à nossa discussão, a frase "O que aconteceria se um deles saísse da caverna e visse a luz? Acaso esta luz não lhe causaria dor nos olhos?". Uma das interpretações mais conhecidas é a que vê, no texto, o trabalho do filósofo (amante da sabedoria), mas eu ouso ver aí o trabalho do educador e de qualquer profissional que se empenhe em transmitir conhecimento ou, até mesmo, dos pais.
Minha ousadia é culpa de um aluno adolescente que, em uma brincadeira com outra professora, disse ter sentido profunda dor ao visitar o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Questionado sobre seu comentário, afirmou ter sentido imensa dor no peito ao entrar no museu e ser recebido pela voz de Carlos Drummond de Andrade, recitando A procura da poesia :"Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intata./Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário".No entanto, o que sempre nos chama a atenção neste poetinha (Pois é! Ele participa de todos os concursos de poesia da escola!) é a sua avidez por informação; tenho a imperessão de que ele nos suga a energia em todas as aulas. Mas a minha pergunta é a seguinte: e os outros que não sentiram essa "dor"?
Quando usei o vocábulo educação no título na postagem, eu não me referia apenas à educação escolar, mas a tudo o que remete à apreensão de cultura. Conversava, hoje cedo, sobre como é caro, no Rio de Janeiro, por exemplo, fazer um passeio turístico; fiz as contas tendo em mente uma família de três pessoas visitando o Corcovado: noventa reais só pra entrar no trenzinho! Quem pode pagar isso? Mas onde está a divulgação dos eventos turísticos e culturais gratuitos? Se não sabemos que há para se ver mais coisas do que aquilo que a TV comercialmente nos apresenta, como sairemos da caverna?
O descaso com a cultura _ e sua conseqüente divulgação _ é tão evidente que os funcionários do Ministério da Cultura estão em greve. Desta forma, tem-se tornado inviável o acesso a alguns espaços públicos e a alguns serviços somente prestados por este órgão. No Rio de Janeiro, a Fundação Teatro Municipal, administrada pelo governo estadual, foi surpreendida com um corte orçamentário que levou ao cancelamento de algumas apresentações; estas só ocorrerão se houver patrocínio de instituições privadas.
O aluno adolescente citado por mim não leu a Alegoria da caverna, mas, ao retornar à sala de aula depois de sua viagem, provocou nos seus colegas um imenso desejo de absorver cultura, de ir além do que a TV diz ser realidade ou verdade. Ele mesmo saiu da caverna, olhou para a luz e voltou para contar aos outros; do seu jeito, iniciou um trabalho de educação.




Há que se pensar que na vida existem muitos tipos de cavernas e que algumas pessoas nem percebem que estão dentro dela. Há, da mesma forma, aqueles que pensam não viver em cavernas, mas na verdade não se percebem no mundo.
A história me ensinou a não julgar e nem preconceiturar e que todo saber é saber, e que toda a vivência é experiência. Mas , ainda assim, me policio pq está intrínseco em mim, em nós. Às vezes me pergunto quem está dentro das cavernas?
Beijos !
De forma séria e responsável pouco ou quase nada se fez ou faz por uma educação de qualidade em nosso país, seja no norte ou sul. Por outro lado parabenizo os nobres educadores que usam o seu ofício em prol do saber, apesar das muitas adversidades. Parabéns pelo blog, seu conteúdo inteligente, visão crítica, no sentido de que muito se precisa fazer para termos um país decente e só através da educação isso será possível.Desejo ter o prazer de ler outros bons textos seus.
Que os DEUSES lhe iluminem sempre.
Um forte e fraterno abraço.
Braúlio Serra
Seus olhos lêem o mundo de uma maneira única. Seus sentimentos puros e educacionais nos fazem crer que este país pode ser "melhorado. Trilhe sempre este caminho bom e permita que outros a sigam, mesmo que só para aprender.
Beijos
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Andréa Motta